A Pele que Habito é superlativo de todos os conflitos típicos de Almodóvar
A Pele que Habito é um filme de horror dos nossos tempos – ou, nas palavras de seu diretor, o espanhol Pedro Almodóvar, um filme de horror “sem gritos e sem sustos.” Mais do que isso, o longa é um superlativo agoniante de todos os conflitos que permeiam a obra de Almodóvar, um grande desfile dos males e das loucuras que assombram a humanidade.
A história gira em torno de uma tríade de personagens centrais – Vera (Elena Anaya), a misteriosa mulher aprisionada na mansão do cirurgião Roberto Ledgard (Antonio Banderas), e entregue aos cuidados de Marilia (Marisa Paredes). A priori, somos levados a acreditar que a a chave do filme é desvendar a identidade de Vera. Mero engano: esse mistério inicial serve apenas de linha condutória para o surgimento de um sem-número de conflitos, segredos obscuros e novos mistérios. Como na vida, no filme de Almodóvar o problema que parece central não passa da ponta de um iceberg muito maior, grande a ponto do próprio filme não ter tempo para desvendar.

(Foto: Divulgação)
Em A Pele que Habito, os conflitos de sexualidade e traumas tão presentes nos outros filmes do diretor convertem-se em enormes hidras, que disputam espaço na telona: o voyeurismo, indícios de Síndrome de Estocolmo, a sensação de estar aprisionado no sexo errado (mostrado da forma inversa ao convencional), obsessões e escapismo revezam-se diante de nossos olhos. Do mesmo modo, Almodóvar não economiza nas referências, que vão dos filmes noir a Alfred Hitchcock (como não lembrar de Um corpo que cai?), passando por Frankenstein e o horror de David Cronenberg. O longa é um ode à loucura humana, criado por um inteligente mashup de referências.
O leitor poderia supor que esse acúmulo de referências e vícios, que evidentemente gera múltiplas camadas de interpretação da obra, resulta em um filme pesado e excessivamente complexo. Pelo contrário: Almodóvar conduz a narrativa de forma orgânica, revelando equilíbrio ao intercalar fatos que conhecemos pelas conversas das personagens, e aqueles que presenciamos por meio de flash backs.
Existe ainda a alusão à artista plástica Louise Bourgeoise, em cuja arte confessional Vera encontra refúgio e terapia – lembrando que, para a própria Bourgeoise, a arte era uma forma de terapia muito mais potente que as visitas ao psicólogo. Aliás, sobre isso, o filme também pode ser interpretado como uma manifestação de descrença nos métodos tradicionais de terapia, opondo a trágica personagem Norma – espécie de Ofélia do século XXI – a Vera, que recorre à arte e à ioga para manter a mente sã.
O sucesso da trama é garantido também pela brilhante atuação do elenco, com destaque para Elena Anaya, que traduz em olhares todo o desconforto inerente ao seu papel, ao mesmo tempo em que deixa transparecer um conflito interior intenso que só é eclipsado pela fúria do desejo de sobrevivência.
Assim como na vida real, em A Pele que Habito não existem vilões ou mocinhos – todas as personagens são movidas por motivações das mais diversas, muitas vezes inescrupulosas, outras patológicas, e na grande maioria das vezes, desconhecidas para as próprias personagens. E, assim como na vida real, o fim da história é apenas o começo – e o espectador se vê obrigado a sair do cinema com mais questionamentos do que entrou.




Nenhum comentário até agora - seja o primeiro! »
1 Pingbacks »
[...] Farhadi, deixou para trás Na Terra de Sangue e Mel, da namoradinha de Hollywood Angelina Jolie, e A Pele que Habito, de Almodóvar.O ponto alto da noite? A homenagem ao ator Morgan Freeman, que recebeu um prêmio [...]