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Grupo dos Cinco: Anita Malfatti

anita malfatti Grupo dos Cinco: Anita Malfatti

Aos 13 anos, sofrendo por não saber que rumo tomar na vida, Anita decidiu submeter-se a uma nova experiência. A sensação da morte, a proximidade do perigo, deveriam decifrar todas as incertezas que pairavam sobre si. Caminhando nas proximidades da estação Barra Funda, a garota amarrou as tranças e deitou-se embaixo dos dormentes, à espera do passagem do trem.

O trem não tardou em passar. Em meio àquela sensação horrível, a temperatura insuportável, o barulho ensurdecedor, uma imagem prevaleceu e fixou-se para sempre na mente de Anita: as cores, cores que riscavam o espaço diante de seus olhos. Estava decidido: ela seria pintora.

 

Anita Malfatti (1889-1964) nasceu da mistura de povos que encontrava-se, no fim do século XIX, em São Paulo. Seu pai, um engenheiro italiano. Sua mãe, uma norte-americana de família rica. O seu pai, Samuel Malfatti, faleceu quando ela ainda estava em idade escolar, o que levou a mãe de Anita a trabalhar, dando aulas de idiomas e artes, para sustentar a casa.

O seu sonho era estudar artes na Europa – sonho que parecia impossível, com as dificuldades financeiras da família. Mas, quando duas de suas amigas resolveram ir à Berlim estudar música, o tio e padrinho abastado de Anita decidiu financiar sua viagem.

Anita desembarcou na Alemanha em 1910 – e repentinamente encontrou-se em meio a um turbilhão de Arte Moderna na Europa. ”Comprei incontinente uma porção de tintas, e a festa começou“, lembrou a pintora, sobre sua chegada.

Quatro anos depois, uma pintora experimentada nos extremos europeus volta, apenas para descobrir um país em que a glória do Renascimento e as a arte acadêmica ainda predominavam. Ainda assim, seus familiares reconheceram o talento da moça, acreditando que ela poderia ser “suavizada” com mais treino.

Anita não seria “suavizada”. Após uma temporada nos EUA – novamente financiada pelo tio – a artista voltou com ainda mais “força masculina”, exibindo a familiares seus retratos de cabelos esverdeados e ângulos incomuns. Até mesmo seu benevolente tio, que tanto investira em seus estudos, chamou as obras da sobrinha de “coisas dantescas”.

 Grupo dos Cinco: Anita MalfattiAnita Malfatti
Mas o que tornou-se mesmo famoso foi o ataque de Monteiro Lobato, no dia 20 de dezembro do ano seguinte. A vernissage da segunda exposição individual de Malfatti havia sido apenas 8 dias antes, e um sucesso. Em seu texto Paranóia ou mistificação, Lobato não poupou adjetivos:

“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura… Se Anita retrata uma senhora com cabelos geometricamente verdes e amarelos, ela se deixou influenciar pela extravagância de Picasso e companhia – a tal chamada arte moderna.”

Aspecto interessante: Lobato não analisou as obras. Ele, inclusive, cometeu alguns equívocos em relação a muitas delas. Sua assinatura não consta no livro de presença da exposição. Monteiro Lobato não precisaria ter visitado a exposição para decidir que detestava cada um dos trabalhos expostos – e muitos defendem que ele realmente não foi.

Lobato também aproveitou sua extensa crítica para alfinetar Oswald de Andrade - a quem referiu-se de forma discreta, porém satírica, quando afirmou que esse tipo de aberração era perpetuado pela “cegueira nata de certos poetas elegantes, apesar de gordos“.

Oswald, como era de se imginar: não deixou por menos. Em breve texto publicado no Jornal do Comércio, elogiou Malfatti e sua exposição, por sua “negação à cópia”.

O impacto real da crítica de Lobato é alvo de muitas lendas e especulações. Há uma versão popular da história, que diz que o trauma causado pelas duras palavras teria levado Malfatti a amenizar seu estilo, para atingir um tipo mais “aceitável” de pintura. Se tal versão é realidade, ou apenas justificativa dos modernistas pela mudança, difícil dizer.

Quase impossível dizer que as críticas de Lobato arruinaram a reputação de Malfatti, como defendem algumas versões. Basta ver que na Semana de Arte Moderna de 1922 – apenas alguns anos após a crítica – o célebre Antônio Prado quis comprar um de seus trabalhos, O homem amarelo. Uma pena que ele já estava vendido a um estranho homem que apaixonara-se pelo quadro, entrando em uma crise de risos, ao vê-lo na exposição individual. Essa homem era Mário de Andrade.

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