Nevermind – desvendando um dos maiores álbuns da história do rock, canção por canção
Nevermind - o segundo e mais famoso álbum do Nirvana - foi o grande disco dos anos 90.
Mesmo a nova gravadora do trio, a Geffen, podia prever o sucesso que o disco alcançaria. A prensagem inicial era de 50 mil cópias, e as projeções eram de que o disco venderia mais 100 mil cópias no ano seguinte ao seu lançamento.
O álbum foi lançado em 24 de setembro de 1991. Em menos de dois meses, atingiu a marca de um milhão de cópias vendidas. Na época de Natal, era o disco mais comprado dos EUA, vendendo 70 mil cópias – por dia. A disparada de vendas botou Nevermind no topo da lista Bilboard de janeiro, com mais de três milhões de álbuns adquiridos.
DivulgaçãoO disco não foi somente um sucesso de vendas. Canções como Smells like teen spirit e Come as You Are tornaram-se hinos de uma geração, sucessos genuínos que invadiram os fones de ouvidos e os corações de jovens mundo afora.
Mas afinal, o que pulsa por trás de cada grito rouco, o que move cada riff de guitarra? Impossível saber ao certo – mas separamos algumas das histórias e inspirações conhecidas por trás das 12 faixas inesquecíveis de Nevermind.
Smells like teen spirit
Qual é o sonho de qualquer compositor? Ter sua música compreendida e abraçada por milhões de fãs, transformando-o num hino de juventude? Foi isso que aconteceu com Smells like teen spirit - e foi isso que converteu essa faixa na canção mais odiada por Kurt Cobain.
Smells like teen spirit nasceu de uma noite de bebedeira em 1990. Na época, Kurt namorava Tobi Vail, vocalista da banda Bikini Kill. A vocalista do grupo, Kathleen Hanna, estava ficando com Dave Grohl. E os quatro estavam tomando umas no apartamento dividido por Cobain e Grohl.
Depois de algumas horas de acaloradas discussões sobre os rumos da juventude e o significado da vida, Hanna rabiscou na parede os dizeres “Kurt smells like teen spirit”. Ela queria dizer que o guitarrista era um ser inocente, como as fragrâncias do desodorante adolescente Teen Spirit. Kurt leu de outra forma: encantou-se ao entender que seria alguém que “exala o espírito jovem”, que teria uma mensagem poderosa a transmitir.
My Space | NirvanaNa letra, desenvolvida em torno da ideia de teen spirit, Kurt pinta um retrato da juventude do início dos anos 90, presa a sequências de distrações – videogames, shows, drogas, transas – para dissipar seu tédio constante. Era um hino de revolta sobre uma juventude estagnada. A juventude que cantarola uma canção, sem parar para ouvir a sua mensagem verdadeira.
Com o sucesso da canção, Cobain passou a odiá-la. Na visão dele, os jovens repetiam seus versos mecanicamente, sem absorver seu verdadeiro sentido – tinham se assumido, e estavam orgulhosos, de sua posição estagnada. Cantavam Teen Spirit, mas não compreendiam seu significado. Kurt havia fracassado em sua missão.
No último show do Nirvana em Seattle, em 1994, Kurt apresentou a música com os dizeres: “Vamos tocar esta porque nosso contrato exige. É a música que arruinou nossas vidas e arruinou Seattle e arruinou a vida de vocês também”.
In Bloom
In Bloom compartilha a ideia central de Smells like teen spirit - dos jovens desencanados demais, que cantam sem se deixar tocar pela música.
In Bloom é menos agressiva, e no refrão até demonstra uma certa compreensão com a pessoa que “não entende nada”.
He’s the one who likes all our pretty songs
And he likes to sing along, and he likes to shoot his gun
But he knows not what it meansEle é o sujeito que curte todas nossas belas canções
E ele gosta de cantar junto, e ele gosta de disparar sua arma
Mas ele não entende o que significa
Acredita-se que a canção foi inspirada pela figura de Dylan Carlson, um amigo meio avoado com que Kurt treinava tiro ao alvo (daí a referência à arma). Foi Dylan, aliás, que sem saber do propósito comprou para Kurt a arma utilizada em seu suicídio.
Come as you are
Come as you are é um pedido de atenção, de aproximação. Qualquer um que seja autêntico pode aproximar-se, e Cobain busca afastar todas as desconfianças garantindo que “não está armado”. Em alguns momentos, chega a ser contraditório, fazendo afirmações como “não tenha pressa, mas venha logo!”.
Come as you are, as you were
As I want you to be
As a friend, as a friend, as an old enemy
Take your time, hurry up
The choice is yours, don’t be lateVenha como você é, como você era
Como eu quero que você seja
Como um amigo, como um amigo, como um velho inimigo
Não tenha pressa, venha logo
A escolha é sua, não se atrase
Esse convite à aproximação é apenas uma das possíveis leituras dessa música. A outra é uma discreta referência ao uso de heroína, que Cobain havia iniciado na época de composição de Come as you are. Na primeira estrofe, por exemplo, somos lembrados que a droga pode ser tanto a amiga, que traz prazer, quanto a inimiga, que mata por overdose.
Na estrofe seguinte, Cobain faz referência ao uso de “bleach”, preparado químico usado para desinfetar a seringa, e ao trend que era o consumo de heroína na Era Grunge.
Breed
Breed traz o lado contestador de Kurt à tona. Na música, ele explica que não pretende ter filhos por pura pressão social – afinal, colocar outro ser humano no mundo simplesmente porque a sociedade acha certo é uma grande besteira.
Não que a música seja um ode ao “não ter filhos” – em determinado momento, Cobain explica que, se o casal genuinamente sentir vontade, eles podem ter filhos, “plantar uma casa” e “construir uma árvore”. O que não dá é fazer tudo isso pela vontade dos outros.
Lithium
Lithium faz uma referência ao lítio, metal alcalino usado no tratamento de maníacos-depressivos. O lítio ajuda a controlar as idas e voltas de sentimentos, estabilizando o paciente.
Assim, como o remédio, a música é uma esperança no fundo do poço. A voz proclama que criou sua própria fé, que está encontrando seus caminhos, e que “não vai pirar”. Ele vislumbra uma tênue felicidade, dentro de si mesmo.
Charles Peterson | DivulgaçãoI’m so happy ’cause today I found my friends
They’re in my head
I’m so ugly, but that’s okay ’cause so are you
We’ve broke our mirrors
Sunday morning is everyday for all I care…
And I’m not scared
Light my candles in a daze
‘Cause I found GodEstou tão feliz porque hoje encontrei meus amigos
Estão em minha mente
Eu sou tão feio, mas tudo bem porque você também é
Quebramos nossos espelhos
Domingo de manhã é como qualquer dia para mim…
E não tenho medo
Acendo minha velas em transe
Porque eu encontrei Deus
Polly
O ritmo de Polly tinha tudo para tornar-se uma canção melosa de amor perdido. Mas não nas mãos de Cobain. A canção com pegada mais tranquila tornou-se um conto macabro de perversão – e da força do instinto de sobrevivência.
A história narrada em Polly é inspirada em um caso policial conhecido: o sequestro de uma garota de 14 anos pelo maníaco Gerald Friend, em junho de 1987. A garota voltava de um show quando foi presa por Friend, que a pendurou de ponta-cabeça dentro de seu trailer. Abusou sexualmente e torturou a menina, até que ela conseguiu fugir enquanto ele abastecia o trailer.
Na letra, Kurt toma uma enfática posição antiestrupo. Ele narra o acontecido do ponto de vista do estuprador, pintando-o como um ser estúpido e menos evoluído, que vê sua vítima como um animal de estimação – “Polly”, em inglês, além de ser um nome feminino, é também um apelido para papagaios (como o nosso “Loro”).
No fim da história, a vítima foge, mostrando-se muito mais inteligente que seu sequestrador idiota.
Territorial Pissings
Territorial Pissings (algo como “mijadas territoriais”) é um grito de revolta de Kurt Cobain contra o “machão típico”. As posturas machistas são pintadas por Cobain como estúpidas e selvagens, como se o “homem que é homem” não passasse de um animal demarcando território com urina.
A cada refrão, Kurt expressa sua vontade de ser um homem diferente, esgoelando-se a cada refrão: “Tenho que encontrar uma saída, uma saída melhor…”.
Essa é também a canção mais ritmicamente violenta e suja de todo álbum. Para gravá-la, Kurt insistiu em conectar sua guitarra diretamente na mesa de som – algo pouco recomendado, e que gera uma sonoridade bastante… peculiar.
Drain You
Não podia faltar em Nevermind uma canção de amor – e é Drain You que faz as vezes. Mas, claro: ao melhor estilo Nirvana.
Em Drain You, os personagens sofrem de um amor tão físico, tão carnal, que não exite mais nojo. Nada que vem do outro pode ser ruim ou sujo – nem secreções, nem infecções. Isso é resultado de uma visão terrivelmente inocente, uma consciência amorosa de um recém-nascido, que vê em cada instante ao lado do ser amado uma aventura.
Chew your meat for you
Pass it back and forth
In a passionate kiss
From my mouth to yours
I like youMastigo sua carne para você
Devolvo e recebo de volta
Em um beijo apaixonado
Da minha boca para a sua
Eu gosto de você
Lounge Act
O nome de Lounge Act já denuncia o pouco caso que mesmo os integrantes do Nirvana dedicavam à canção. Um “lounge act” é uma canção que serve apenas de fundo para um ambiente lounge, para as pessoas conversarem e relaxarem, sem prestar muito atenção. Seria o equivalente ao nosso “música de elevador”.
A música também fala do conflito interno de Kurt, ao aceitar gravar um disco em uma grande gravadora. Um trecho fala da inspiração perdida com o fechamento do contrato, e como “eles” (os chefões) insistem que ainda assim o “cheiro dela” ainda está presente e o músico continua um grande artista – ainda que ele mesmo não acredite nisso.
I’ll go out of my way to make a deal
We’ve made a pact to learn from who
Ever we want without new rules
We’ll share what’s lost and what we grew
They’ll go out of their way
To prove they still
Smell her on youVou me dar ao trabalho de fazer um acordo
Fizemos um pacto para aprender
Com quem quisermos sem novas regras
Vamos dividir o que foi perdido e o que cultivamos
E eles vão se dar o trabalho de
Provar que ainda sentem o cheiro dela em você
Stay Away
Stay Away é uma patada de Kurt Cobain nas bandas que não produzem nada de original, apenas copiando o que já fez sucesso. Kurt critica as bandas medíocres, e as formas vazias que encontram de fazer seus disquinhos, seus showzinhos, sem nunca elevar sua música à verdadeira condição de arte.
Logo no início da música, ele tira sarro da situação de “macaco imitador” que essas bandas vivem, e declara: “Antes morto do que descolado”.
Monkey see, monkey do
[I don't know why]
I’d rather be dead than cool
[I don't know why]
Every line ends with rhyme
[I don't know why]Macaco vê, macaco faz
[Não sei por quê]
Antes morto que descolado
[Não sei por quê]
Toda linha termina em rima
[Não sei por quê]
On a plain
Por ser uma canção improvisada, criada de fragmentos de ideias e de última hora, On a plain tornou-se uma das canções mais espontâneas e mais reveladoras escritas por Kurt. O próprio nome é uma expressão para falar francamente, abertamente.
My Space | NirvanaO resultado é um mapa da personalidade e das inseguranças de Cobain. Na letra, ele revela sua dor pelos sofrimentos vividos pela mãe nos dois casamentos (“Minha mãe morria toda noite”) e como ele sentia-se pouco confortável com a posição de porta-voz de uma geração (“O que é que estou tentando dizer?”).
Something in the way
A melancólica Something in the way foi gravada e regravada muitas vezes, sem ganhar vida. A música parecia muito dura, muito tensa.
Um dia, Kurt chamou o produtor Butch Vig para a sala de controle e, com um violão velho, mostrou como pensava que Something in the way deveria soar: os acordes quietos, sutis, e a voz sussurada e cheia de dor.
Vig teve seu momento eureca: para contar a história (real, ocorrida em 1985) de viver debaixo da ponte, Kurt precisaria deixar fluir essa introspecção. Todos tiveram que sair do estúdio. Kurt gravou a música apenas com um microfone, captando sua voz e violão. Foi isso que foi para Nevermind.



