Cultura e Arte.      
Simples, sem ser óbvio.      

“Sonata a Kreutzer – uma história para o século XIX” aborda o ciúme levado às raias da loucura

Espetáculo teatral baseado em clássico livro de Leon Tolstoi tem a obra-prima de Beethoven como protagonista.

 

"Sonata a Kreuzer"Cacá Bernardes | Divulgação

 

Preâmbulo

O ciúme

Surgiu sorrateiro, nas fendas da insegurança, e foi se infiltrando, matreiro, sinuoso, pelo corpo débil e tenso daquele homem que, como árvore esmaecida da força vital, lentamente começou a apodrecer, vendo o ciúme destilar por seu caule oco o fel da dúvida.

E assim o gesto, para ela natural, para ele era o indício de tudo, do jogo sórdido das paixões passageiras e infiéis que, na verdade, existia apenas em sua imaginação. Como isso ele não sabia, nem percebia, passou então a atormentá-la, a compartilhar com sua esposa o delírio que o acometia.

De início, ela se esforçava para acalmar a situação. Colocava panos quentes. Fingia que não ouvia. Mesmo porque ele não se esforçava em dissimular o que sentia, e a constrangê-la, em diversas situações, por conta disso. É por amá-lo, acima de tudo, que ela agia dessa forma conciliadora.

Era, aos 27 anos, bastante madura, como se depreende de sua reação ante ao ciúme do marido. Consciente de suas qualidades, ela sabia ser uma mulher extremamente bonita, atraente – e tinha a exata noção do que esses predicados significam e quantas portas podem ser abertas pela suave e enganadora visão da beleza idealizada…

E, para desespero de seu marido, ela detinha em si a expressão do feminino em essência, seja pelos lábios socialistas de tão vermelhos e rebeldes, seja pelos olhos verdes cor do mar e da esmeralda, seja pelos cabelos de girassol e ventania, seja pelo corpo macio, sedoso, manhoso, seja pela sua inteligência e talento ao piano.

Por tudo, ou nada disso (pois infelizmente nosso agoniado protagonista, apesar da posse, há tempos não percebia os encantadores atributos de sua esposa, turvados pela aspereza imposta pela rotina), o ciúme acomodou-se em seu coração e lhe tirou a razão.

Logo ele, um homem fleumático, cheio de maneirismos, dogmático e sistemático, via seu esquema ruir. Foi quando uma ideia sinistra e ao mesmo tempo a mais adequada – em sua opinião – surgiu em sua mente: porque não acabar com o sofrimento, eliminando a causa de tantas dores?

Foi exatamente neste instante que o destino dela se definiu, sem ao menos ela saber, enquanto tocava ‘Sonata a Kreutzer’, de Beethoven, junto àquele violinista, amigo de seu marido, que agora lhe era tão próximo, e que tanto prazer lhe dava ao tocar junto com ela, em dias e noites de música e sonho…

 

Intermezzo

Esse pequeno conto de autoria do escriba que vos escreve é uma livre adaptação e serve como um resumo, ou mesmo introdução, ao tema central do espetáculo Sonata a Kreutzer – uma história para o século XIX.

O texto de Cássio Pires baseia-se no livro Sonata a Kreutzer, do escritor russo Leon Tolstoi (autor de clássicos da literatura como Anna Karenina e Guerra e Paz), também conhecido pelo epíteto de Ensaio sobre o Ciúme, e traz a história de Pózdnichev, um homem que assassinou sua esposa por conta desse sentimento que tantas tragédias e desencontros causa entre os casais outrora enamorados e que por algum motivo passam a se achar donos uns dos outros.

Se no livro, datado de 1891 (e que causou tamanha polêmica por conta da temática que chegou a ser proibido nos EUA), a ação se desenrola em um trem, na peça o protagonista, interpretado por dois atores (André Capuano e Ernani Sanchez, numa simbiose admirável), recorda sua vida ao lado da esposa enquanto coloca para tocar quatro discos de vinil com a bela composição de Beethoven em uma vitrola de 78 rotações.

 

 

A direção de Marcello Airoldi consegue criar um clima de mistério e transportar o espectador para o universo repleto de travas, insatisfações, questionamentos morais, conflitos espirituais, ressentimentos e lembranças de Pózdnichev, reflexo de muitas refregas íntimas e pessoais que Tolstoi enfrentou durante sua vida, em especial em suas relações amorosas e conjugais.

O cenário e os figurinos preparados por Carla Estefan levam o público ao século XIX, com destaque para as fotografias antigas espalhadas por todo o teatro, desde a entrada até o palco.

Há um toque de modernidade na presença de um smartphone pendurado usado pelos dois atores para marcar o intermezzo e gravar pensamentos aleatórios, como “o violonista tem bunda de mulher” – em certo momento, esses pensamentos são novamente reproduzidos, numa sequência surreal.

 

"Sonata a Kreuzer"Cacá Bernardes | Divulgação

 

A iluminação também merece destaque, sendo, em alguns momentos, um novo protagonista junto a André Capuano e Ernani Sanchez.  A atuação da dupla é segura e qualificada, e traz relances inspirados, como quando os atores incorporam a ausente, porém onipresente esposa de Pózdnichev.

As lembranças do protagonista, ao narrar sua tragédia pessoal, enveredam para uma discussão filosófica acerca dos descaminhos, raivas e transferências de infelicidades que afetam muitos casamentos, bem como a dificuldade de comunicação entre homens e mulheres, de compreensões mútuas de características, anseios, desejos e humores.

Apesar do tema denso, a peça tem saídas de humor que tornam o clima mais ameno, como essa: “Amor é aquilo que vocês dizem sentir por qualquer mulher do tipo bonita…”.

 

Serviço

  Sonata a Kreutzer - uma história para o século XIX

Até 23 de fevereiro de 2013
Sextas e sábados, às 20h30

SESC Pinheiros
Rua Paes Lemes, 195 – Pinheiros (perto da estação Pinheiros do metrô)
São Paulo

Inteira: R$ 10,00
Meia: R$ 5,00

Não recomendado para menores de 14 anos

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